Abandonado às traças

Era como ficava aquele canto onde ela se abaixava, abraçando os joelhos, relembrando o futuro que um dia sonhou, no passado.

Hoje ela vive o presente, embrulhado num papel crepom. Com fitas coloridas e perfume de amor.

Tratou de limpar o cantinho, com aquele cheirinho da casa nova. Colocou um arranjo bonito, pra colorir o coração que debulhava gargalhadas da paixão.

Mas sabia, que, se precisasse, para sorrir, ou gargalhar, era só tirar o arranjo do lugar. Como um código, um sinal. Ali, as traças não teriam mais vez.

Anúncios

Essa conta não bate.

imagem post

“Você gosta mais dele do que ele de você.”

Me diz #pelamordequalquercoisa quem foi que colocou essa regra pros relacionamentos? De que entre os casais deve haver um amor igual, e que se um amar mais que o outro a coisa está errada?

Vem cá, o amor é mensurável? É preciso mesmo fazer essa contagem? Isso vai te levar a algum lugar?

Merece de fato alguma consideração? Enfim… Amar mais ou menos muda alguma coisa?

Se mudar, querido.. Não é amor.

Ninguém parte do princípio de que em um relacionamento falamos de pessoas diferentes, espíritos diferentes, com culturas e criações diferentes, famílias diferentes, absolutamente tudo diferente. Com aspectos (veja que eu disse aspectos) semelhantes.

E é isso que leva ao crescimento, à evolução.

Me recuso a contabilizar o amor. Acho desnecessário. Impossível, até.

Pode parecer/ser loucura, mas me preocupo muito mais com o amor que eu dôo, do que aquele que eu recebo (até porque esse é só consequência do outro – e isso não quer dizer que deva ser nas mesmas proporções, se é que existem proporções para o amor).

Querer receber o mesmo amor que se dá é o mesmo que fazer caridade pensando em algo em troca.

Não tem que ser assim. Essa conta não bate. E nem tem que bater, pra fazer sentido.

 

 

Novelo só

E aí, até seu cabelo caindo passa a fazer sentido.

Tem alguma coisa mudando por aí. De dentro pra fora. Uma maneira que o corpo arranja de expulsar da alma aquilo que não te faz bem.

E aí, até o silêncio deixa de ser incômodo.

Tem algo sendo dito lá das tripas. Um segredo só pra você ler.

E aí, até as palavras correm soltas.

Tem, de fato, alguma coisa que precisa explodir.

E daí que você quer entrar na caixa que tem o seu nome, que fica dentro da sua cabeça, perto do coração?

Sem mais, porque se tiver mais, vai virar um novelo só.

Essa coisa de ser

Acabei de dizer no Twitter que essa coisa de ser gente grande nem é tão ruim assim.
Acho que quando a gente descobre uma coisa pela qual se tem prazer em fazer, deixa de falar na terceira pessoa, de culpar o calo no mindinho, ou a chuva que faz com que seu pé fique todo ensopado dentro do carro, por causa de um vazamento em algum lugar.
Quando a gente decide pelo o que vai viver, a gente vive sorrindo, mesmo levando tombo.
Essa coisa de ser gente grande, ser dona do meu horário, da minha agenda, das minhas palavras e decisões me faz pensar que, se eu fosse criança, era assim que eu queria ser quando crescesse.
A gente vai se moldando aos poucos. O burilamento é, de vez em quando dolorido, mas passa. Quando a decisão é nossa, passa sim.
Essa coisa de ser gente grande chegou, na hora que tinha que chegar.

Passo à frente.

Cerrou os olhos e ainda não conseguia enxergar o que queria dizer.
Voltou para a sombra, prometendo, por mais uma vez, deixar pro outro dia, já que sabia sem saber que não conseguiria conseguir.
No final das contas, já tinha conseguido. Entrou na brincadeira boba do bobo da esquina, que tocava um triângulo pra dar sentido a vida, ou vintém aos bolsos.
Viajou na onda do motor que passava ao longe, apressado. E se repetiu.
Sem parar pra pensar, colocou uma vírgula lá.
Sem conceituar, sem consentir, sentiu o amor por ele bater. Era inevitável, já.
Deu um passo à frente e saiu da sombra, sem fechar os olhos, de braços abertos, rodopiou. Agora já enxergava o que queria ver: o alívio de um coração que conseguiu falar. Mesmo que sem se entender.

Minha majestade?

E foi nessa brincadeira de realizar sonhos que me vi aqui, retirando as teias do meu futuro.

É então que a gente se pergunta quando foi que parou no tempo, sem nem sequer se perguntar se podia. Apenas na vã tentativa de rebuscar, eternizar.

Pra que mesmo, minha majestade?

Deu saudade de ter saudade. Saudade de reviver um sonho “bobo” de criança de ver o Papai Noel chegar. De ser bonzinho pra merecer.

O mundo vai fincando a gente nesse precipício claro de pés no chão. Sendo que é tão fácil aproveitar a brisa e alçar voos livres, se lançando com tudo na barra de segurança.

Foi-se o tempo, minha majestade?

Não. Não foi. Ainda temos tempo de fazer o que se quer. De sonhar como se quer. E viver como se quis.

Fique aqui, Majestade. Fique, sem querer entender. Fique pra respirar de olhos fechados e ver, então, que falta pouco. Muito pouco pra realizar.

Disformes

É que, de fato, no final das contas a gente fica sozinho, no quarto escuro, esperando o sono chegar.

Faz-se pensamento, palavra, coração. Faz-se sonho, então.

Passa o tempo, passa-tempo, passa. E passa. E é aí que o desejo vem. Em forma de prelúdios lunares sem nexo e nem porque.

Na lembrança real de um futuro presente, a ansiedade também vem de lá de não sei onde.

Frases construídas, baseadas em castelos de areia. Comparações fajutas num desenrolar da dança da meia noite. Da uma hora. De alguns milésimos de vontades mascaradas, como o fantasma da ópera.

Não é pra entender. Nunca foi.

Era pra ser manuscrito, na verdade. Escrito em pena, com nanquim. Desenhado a tinta lacrimejante, bem aguada, pra desfocar. Pra não focar. Pra, quem sabe, conseguir ser.

Eterna busca pelo fato de, no final das contas, a solidão esperada seja o mesmo assunto de sempre, no quarto escuro, esperando o sono chegar. Talvez, embalada em versos disformes, da valsa em ritmo de reggae, tocando no coração vizinho.

O que foi isso? Não foi.

Não foi não. É que o futuro presente já chegou, atrás de alguém que sorria pra mim.

Quando eu precisar.

Dizer que a vida vai ser mansa é pura balela. Dizer que você vai querer jogar tudo pro alto, não.

Um discurso otimista e cheio de fé é muito lindo, de verdade. Eu até apoio. Mas ninguém dá conta de se manter firme,  o tempo todo. Quando eu digo ninguém, é ninguém mesmo.

Até Jesus, em sua grandeza e seu desprendimento, baqueou. Tudo bem, ele seguiu em frente, foi lá e fez.

Podemos? Claro que podemos. Se é fácil? Ah, meu amigo, se fosse, a vida levaria o nome de piriguete.

“Você tem que ser forte, agora”. Vira e mexe a sociedade te obriga a isso, sua religião te ensina que a cruz não é mais pesada do que você possa suportar, e você tem que aguentar sorrindo os caldos das ondas da vida. Aquelas ondas bem dadas que te pegam por trás, te fazem girar umas três vezes, engolir e aspirar água salgada. Aí, meu bem, você coloca a cabeça pra fora com a traquéia ardendo e o estômago revirando e não pode chorar. Apenas dizer “pulou, vai passar.”

Não. Não.

“A dor existe. O sofrimento é opcional.”  Mas e se dói demais? Como faz?

Seres humanos precisam de momentos de fraqueza sim. Precisam se sentir impotentes sim, pra se fortalecerem depois. Não dá pra ser um poço de força e determinação em toda a sua existência. Até porque, somos pequenos demais pra isso.

O que eu tô dizendo é “nem tanto ao céu, nem tanto à terra.” É preciso encontrar o equilíbrio. E pra equilibrar-se também é preciso chorar e pensar que não vai conseguir, pra depois conseguir, sorrir ou chorar mais, que seja.

O mundo é hostil, sim. As pessoas vão te magoar, sim. A vida vai te pregar peças demais. Você vai pensar que tá tudo perdido, que o buraco é mais fundo que imaginava, milhares de vezes.

Se você não puder colocar isso pra fora, você, simplesmente, tá perdido. E isso é sério.

Que se foda essa força, então. Que seja fraqueza, quando eu precisar.

Há de haver.

No final das contas, a lágrima ia rolar, de qualquer forma. Estava camuflada há tempo demais.

Mesmo que não resolvesse nada, deixá-la rolar faria algum sentido e melhoria de uma forma, ou de outra, alguma coisa lá na frente.

Mas ela queria chorar sozinha. Sem ninguém pra perguntar o que é que havia ali.

Seguiu pra mudar.

Apagou. Decidiu. Desistiu. Refez. Remontou. Arrumou. Desarrumou. Mudou. Mudou de novo. Voltou pro que era. Tornou a mudar. Se assustou com o novo. Quis ousar. Ousou. Quis voltar atrás. Voltou. Quis seguir em frente. Seguiu.

Seguiu. Olhou pro lado e sorriu. Olhou pro outro e chorou. Olhou atrás, deu saudade. Olhou à frente, ansiedade. E, mais a frente, aquela vontade.

Se abraçou. Não se amou, ainda. Mas gostou do calor que o peito emanou quando pensou em si. Quis a palavra. A sua. E seguiu.

Seguiu.

Seguiu pra mudar de novo, enquanto a mudança existir.